quinta-feira, 7 de março de 2013

Rotina mas, não para sempre....

Alto e risonho aparecia lá todos os dias, para deleite dos seus olhos. A sua simpatia era já reconhecida por ela como algo intrínseco nele.
Todos os dias de manhã o pedido era o mesmo:
- Bom dia, cafézinho...
O seu cheiro assaltava-lhe os sentidos, entorpecendo lhe a mente que se recusava a trabalhar, atrapalhada lá tirava o café e com as pernas bambas e as mãos trôpegas punha-lo na mesa dele. Pela tarde ele aparecia com a igualmente simpática, mulher e o pedido podia variar, entre os dois cafés e o um café e algo mais. Um dos dias em que o pedido variava a conversa desenrolou-se:
- Quero um néctar...- disse olhando para a montra, pensado no que lhe apetecia.
- De quê? - quis saber a empregada.
- Hum... daquilo que tu costumas beber. - disparou sorrindo-lhe, brincalhão.
A fraca empregada, que sempre se deixava amolecer por ele, corou violentamente e esboçou um sorriso envergonhado. Mais uma vez ganhou força nas canetas e levou-lhe o pedido à mesa.

Estranha a ligação que se fora criando entre eles, a empregada tentava não pensar muito no assunto, sabia que ele lhe era inalcançável   a diferença de idades por demais notória bem como o óbvio compromisso dele, não lhe davam lugar para imaginações mais ambiciosas. Outro facto de estranhar era o facto de ela não sentir qualquer animosidade pela mulher dele. Via-o bem com ela, ela nunca se mostrara menos simpática.
Mas a presença dele no café, sempre ás mesmas horas era-lhe confortável, definia-lhe uma certa rotina que ela não queria quebrar. Animava-a vê-lo entrar, ainda que acompanhado, com o seu sorriso fácil e os seus brilhantes olhos verdes que a deixavam embaraçada, sentia falta do rubor provocado por ele quando se atrasava por uns minutos...
Seria aquela uma paixão platónica?
Não sabia por quanto tempo mais podia durar aquilo sem que começasse a pensar que a mulher dele não prestava e as mil e uma razões para ele a largar, tal como uma fera ciumenta.

No entanto não teve de pensar mais nisso, quando um dia, dois dias, três, dez... um mês ele não mais apareceu, o seu sorriso não mais a embaraçou, e os seus pensamentos não mais se emaranhavam na estranheza de até gostar da sua mulher. A sua rotina tinha-se quebrado, bem como a alegria que a movia naquele trabalho.

( Ficção)